Inteligência artificial pode facilitar o dia a dia no Ministério Público, afirma Carmen Kfouri
Inteligência artificial pode facilitar o dia a dia no Ministério Público, afirma Carmen Kfouri
Subprocuradoria-Geral de Justiça de Estratégia e Inovação fez pesquisa sobre uso da ferramenta
Pesquisa promovida com os integrantes do MPSP revelou que 85% das pessoas demonstram interesse pela adoção de ferramentas baseadas em inteligência artificial no âmbito da instituição. Quem revela esse e outros dados é a subprocuradora-geral de Justiça de Estratégia e Inovação do MPSP, Carmen Kfouri. Em entrevista, ela sustenta que a automação pode reduzir significativamente o impacto de tarefas repetitivas no cotidiano dos profissionais, além de otimizar a elaboração de documentos padronizados e permitir que mais tempo seja aplicado em atividades estratégicas. Ainda ao longo da conversa com o diretor do Centro de Comunicação Social do MPSP, Claudio Augusto, Carmen detalha os investimentos em capacitação prática, suporte técnico e comunicação interna, com foco em ampliar a confiança no uso das novas tecnologias. Dentre as iniciativas recentemente adotadas estão a disponibilização do Copilot, a criação do Hugo (sistema que interage com jurisprudências do Superior Tribunal de Justiça) e o desenvolvimento de uma IA voltada à atuação extrajudicial dentro do SISMP.
O que a pesquisa revelou sobre a expectativa dos integrantes do MPSP em relação ao uso de ferramentas de IA?
Olha, Claudio, a pesquisa revelou uma expectativa muito positiva. Cerca de 85% dos respondentes demonstraram interesse real ou expectativa em adotar ferramentas de IA disponibilizadas pelo MPSP. Isso mostra uma predisposição favorável à inovação tecnológica, desde que as soluções venham acompanhadas de qualidade, suporte técnico e capacitação adequada.
O impacto das tarefas repetitivas é alto no dia a dia de membros e servidores, doutora? O que a pesquisa revela?
É bem alto, sim. A maioria do pessoal disse que essas tarefas repetitivas atrapalham bastante o rendimento no dia a dia. Numa escala de 1 a 10, a média foi 7,08, então já dá para ter uma ideia do peso disso na rotina. Além disso, 96% das pessoas que responderam acreditam que a automação com IA pode ajudar — e muito — a melhorar o desempenho no trabalho.
Que tipo de documento aparece com mais frequência nas tarefas diárias das Promotorias? A IA pode abreviar o tempo gasto nessas peças?
As Promotorias lidam todos os dias com uma quantidade enorme de documentos. E muitos deles são peças repetitivas que, mesmo assim, precisam ser ajustadas manualmente. Isso consome um tempo enorme. A IA tem um potencial muito grande aqui: pode ajudar a estruturar esses documentos mais rápido, reduzir o trabalho braçal e liberar os profissionais para focarem em atividades mais estratégicas e complexas.
Como está a questão do treinamento, doutora?
Olha, para engajar de verdade, precisamos mais do que só disponibilizar a ferramenta. É preciso mostrar na prática como a IA pode facilitar o dia a dia. Estamos fazendo treinamentos bem objetivos, com exemplos reais do trabalho do MPSP — tipo como automatizar uma petição ou resumir um processo longo. Outra coisa importante que estamos fazendo é investindo em comunicação interna, elaborando tutoriais, vídeos curtos, manuais práticos e até mesmo conversando entre colegas que já estão usando e podem compartilhar experiências. E claro, suporte técnico fácil e acessível também faz toda a diferença. Quando o usuário sabe que pode tirar dúvidas e contar com ajuda, ele se sente mais seguro para testar. Com isso, o medo da tecnologia diminui e o uso vai crescendo naturalmente.
Quais são as iniciativas da SubInova no campo da IA?
Com a finalidade de capacitar os usuários, estamos realizando workshops práticos. Já fizemos um geral, para a classe toda, com mais de mil acessos, e outro específico para a segunda instância, começando pela Procuradoria Criminal e pelo Setor de Recursos Especiais e Extraordinários. Seguiremos o cronograma de capacitações com as demais Procuradorias e a ideia é levá-lo, de forma regionalizada, aos colegas da primeira instância. Estamos testando 80 licenças do Teams Premium, com integrantes voluntários que se predispuseram a usar a ferramenta e até o momento os feedbacks têm sido muito positivos. Também está em fase de testes uma IA que trabalha dentro do SISMP, para ajudar na atuação extrajudicial dos promotores. Além disso, foram adquiridas 100 licenças do Copilot Premium, que serão encaminhadas a setores estratégicos, onde é mais comum o manuseio de processos volumosos. Em parceria com a Subprocuradoria-geral de Justiça Jurídica, nossa equipe de jurimetristas desenvolveu e está aprimorando uma ferramenta de IA chamada Hugo - em homenagem ao doutor Hugo Nigro Mazzilli -, de interação com a jurisprudência do STJ. Além de ter sido selecionada para ser apresentada em evento do CNMP, diversos Ministérios Públicos já nos procuraram, interessados no compartilhamento da ferramenta. Por fim, estamos desenvolvendo um ambiente oficial do MPSP para uso de IA. Todo esse processo deve ser muito cauteloso e responsável, dada à sensibilidade dos dados com os quais trabalhamos. Tão importante quanto termos uma ferramenta própria é saber usá-la de forma responsável, sem comprometer a qualidade do trabalho.